Qualidade vs. quantidade de óvulos na FIV: o que o seu número de óvulos realmente significa

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29 Jun 2026
Ilustração de um espermatozoide a alcançar um óvulo sobre um fundo azul, representando a qualidade e a quantidade de óvulos na fertilidade e na FIV.

A FIV não é apenas uma questão de números

Quando inicia um tratamento de fertilização in vitro (FIV), é natural focar-se nos números: quantos óvulos tem, quantos foram recolhidos, quantos fertilizaram e quantos embriões chegaram ao quinto dia de desenvolvimento.

Estes números são importantes, mas não contam toda a história.

Uma das questões mais importantes a compreender desde o início é a diferença entre quantidade e qualidade dos óvulos. Pode ter um número reduzido de óvulos e, ainda assim, ter boas probabilidades de sucesso. Por outro lado, pode produzir muitos óvulos e não obter um embrião saudável para transferência.

Na Ferticentro, ajudamos os pacientes a olhar para além dos números e a compreender o que realmente influencia o sucesso da FIV.

O que é a quantidade de óvulos?

“A reserva ovárica”, como é habitualmente designada pelos médicos na área da fertilidade, refere-se ao número de óvulos presentes nos ovários num determinado momento. A sua reserva ovárica não fornece todas as respostas sobre a sua fertilidade. Não indica se consegue engravidar naturalmente nem avalia a qualidade dos óvulos. O que mostra é quantos óvulos os seus ovários poderão ainda ter disponíveis e como poderão responder durante um tratamento de FIV.

Para saber mais sobre a FIV, consulte o nosso Guia para Iniciantes sobre a FIV.

As mulheres nascem com todos os óvulos que terão ao longo da vida. Com o passar do tempo, esse número diminui naturalmente. À medida que envelhece, a sua reserva ovárica reduz-se, especialmente a partir dos 35 anos. É por isso que a quantidade de óvulos é um dos primeiros aspetos avaliados pelos especialistas em fertilidade antes de iniciar um tratamento de FIV.

Para avaliar a quantidade de óvulos na FIV, os médicos recorrem normalmente a dois exames:

  • Análise sanguínea da AMH
  • Ecografia para contagem de folículos antrais

O que é a AMH?

AMH significa hormona anti-mülleriana. Esta hormona é produzida pelos pequenos folículos presentes nos ovários. Os seus níveis podem ser medidos através de uma simples análise ao sangue.

O valor da AMH ajuda o especialista em fertilidade a avaliar a sua reserva ovárica. De forma simples, pode indicar se ainda tem um número mais elevado ou mais reduzido de óvulos. É um dos exames de fertilidade mais utilizados antes da FIV.

O que são os folículos antrais?

Os folículos antrais são pequenas estruturas cheias de líquido presentes nos ovários. Cada uma pode conter um óvulo imaturo. Estes folículos podem ser observados através de ecografia, normalmente no início do ciclo menstrual.

Ao contá-los, o médico consegue determinar a contagem de folículos antrais, um indicador adicional da sua reserva ovárica e da forma como os seus ovários poderão responder à medicação de estimulação utilizada na FIV.

Porque é que a reserva ovárica é importante na FIV?

A sua reserva ovárica, os níveis de AMH e a contagem de folículos antrais ajudam a equipa de fertilidade a perceber se poderão desenvolver-se mais ou menos óvulos durante o tratamento. Esta informação permite planear a medicação e definir expectativas realistas para o ciclo. Apesar de ser útil, o número de óvulos não revela tudo sobre a sua qualidade, que pode variar significativamente de paciente para paciente.

É importante lembrar que uma baixa reserva ovárica não significa que a FIV não possa resultar. Significa apenas que o médico poderá ter de adaptar o tratamento de forma mais cuidadosa. Também é importante saber que estes exames não avaliam a qualidade dos óvulos, que é uma questão distinta.

O que é a qualidade dos óvulos?

A qualidade dos óvulos refere-se à probabilidade de um óvulo:

  • fertilizar com sucesso
  • se desenvolver num embrião saudável, e
  • dar origem a uma gravidez bem-sucedida.

A qualidade dos óvulos é mais difícil de avaliar do que a sua quantidade. Mesmo um óvulo com aparência normal pode apresentar alterações cromossómicas que impeçam o seu desenvolvimento adequado ou aumentem o risco de aborto espontâneo.

É por isso que, na FIV, a qualidade dos óvulos é frequentemente mais importante do que o número de óvulos obtidos.

A idade é o principal fator que afeta a qualidade dos óvulos. À medida que a mulher envelhece, os óvulos que permanecem nos ovários têm maior probabilidade de apresentar alterações cromossómicas. Esta é uma das principais razões pelas quais as taxas de sucesso da FIV tendem a diminuir com a idade.

O que são alterações cromossómicas?

Representação fotográfica de um conjunto de cromossomas humanos (cariótipo), organizados em pares homólogos e por ordem numérica, mostrando a síndrome de Down, na qual existem três cópias do cromossoma 21 em vez de duas.

Caption: Esta imagem mostra um conjunto de cromossomas humanos. A maioria das pessoas tem 23 pares, sendo que um cromossoma de cada par é herdado da mãe e o outro do pai. Na síndrome de Down, existe uma cópia extra do cromossoma 21, pelo que existem três cromossomas 21 em vez dos dois habituais.

As alterações cromossómicas são alterações genéticas resultantes de mudanças no número ou na estrutura dos cromossomas. Estas alterações podem já estar presentes no óvulo ou surgir após a fertilização, à medida que o embrião começa a dividir-se.

Os cromossomas são estruturas que contêm o material genético, incluindo o ADN. Um óvulo saudável deve conter 23 cromossomas. Quando é fertilizado por um espermatozoide, que também contribui com 23 cromossomas, o embrião resultante deverá ter um total de 46.

Se o óvulo ou o embrião tiver cromossomas a mais, a menos ou danificados, o desenvolvimento poderá ser afetado. O embrião pode:

  • não se desenvolver normalmente
  • parar de crescer após a fertilização
  • não conseguir implantar-se no útero
  • resultar num aborto espontâneo
  • mais raramente, dar origem ao nascimento de uma criança com uma condição genética

É por isso que as alterações cromossómicas são tão importantes na FIV. Um óvulo pode parecer normal em laboratório e, ainda assim, apresentar erros cromossómicos. Além disso, mesmo após a fertilização, podem surgir novas alterações à medida que o embrião se divide.

A probabilidade destas alterações aumenta com a idade, o que ajuda a explicar porque a qualidade dos óvulos tende a diminuir ao longo do tempo.

Qualidade vs. quantidade de óvulos: porque é que esta diferença é importante na FIV?

Muitos pacientes assumem que recolher mais óvulos significa automaticamente uma maior probabilidade de gravidez. É compreensível pensar dessa forma. Mais óvulos podem representar mais oportunidades, mas nem sempre se traduzem em melhores resultados.

O mais importante é o que acontece a seguir.

O Dr. Vladimiro Silva, Diretor Científico da Ferticentro, explica:

“Vemos pacientes que produzem quinze óvulos num ciclo e acabam por obter apenas um embrião saudável. Também vemos pacientes que produzem cinco óvulos e conseguem quatro embriões saudáveis. O número de óvulos recolhidos é apenas o ponto de partida.”

 

O que realmente importa é o que acontece em cada etapa: a fertilização, o desenvolvimento embrionário e, por fim, a qualidade dos embriões disponíveis para transferência. É por isso que a FIV não consiste apenas em obter o maior número possível de óvulos. O objetivo é aumentar as probabilidades de criar um embrião saudável.

Porque é que mais óvulos nem sempre significam melhores resultados na FIV

Ter um maior número de óvulos pode ser vantajoso, mas não garante automaticamente um melhor resultado. Em cada etapa da FIV, os números tendem a diminuir. Os médicos referem-se a este fenómeno como taxa de perda ao longo do processo. Isto significa que:

  • nem todos os óvulos recolhidos serão maduros
  • nem todos os óvulos maduros irão fertilizar
  • nem todos os óvulos fertilizados continuarão a desenvolver-se
  • nem todos os embriões chegarão à fase de blastocisto
  • nem todos os blastocistos serão adequados para transferência

Esta é uma parte normal do processo de FIV. Por isso, o número de óvulos conta apenas para uma parte da história. No final de contas, a qualidade dos embriões costuma ser um indicador mais fiável das probabilidades de sucesso.

Como a qualidade dos óvulos influencia cada etapa da FIV

Compreender o que acontece durante a FIV ajuda a perceber em que momentos a qualidade dos óvulos tem maior impacto.

Recolha de óvulos

Após a estimulação ovárica, os óvulos são recolhidos através de um procedimento simples, normalmente realizado sob sedação. O número de óvulos obtidos depende da sua reserva ovárica e da forma como o seu organismo responde à medicação.

Fertilização

Nem todos os óvulos fertilizam com sucesso. Na FIV com ICSI, em que um único espermatozoide é injetado diretamente em cada óvulo maduro, as taxas de fertilização costumam ser elevadas, mas alguns óvulos continuam a não fertilizar.

Desenvolvimento embrionário

Os óvulos fertilizados são monitorizados durante 5 a 6 dias enquanto se desenvolvem em embriões. Alguns deixam de evoluir antes de atingirem a fase de blastocisto. Isto é comum e não significa que outros óvulos não consigam chegar a essa fase.

Seleção embrionária

Os embriologistas avaliam os embriões com base no seu crescimento, no aspeto das células e na forma como evoluem ao longo do tempo. Esta avaliação ajuda a identificar quais os embriões com maior probabilidade de implantação.

Imagem microscópica de um embrião em fase de blastocisto, uma etapa de desenvolvimento frequentemente atingida antes da transferência ou criopreservação na FIV.

Testes genéticos

Para alguns pacientes, o diagnóstico genético pré-implantação (PGT) pode ajudar a identificar embriões com alterações cromossómicas antes da transferência.

Esta abordagem pode ser particularmente relevante em casos de idade materna mais avançada, histórico de abortos espontâneos recorrentes ou ciclos de FIV sem sucesso.

O Dr. Vladimiro Silva refere:

“Os diagnósticos genéticos não criam embriões melhores, mas ajudam-nos a identificar aqueles que têm maiores probabilidades de resultar numa gravidez saudável.”

 

Para os pacientes certos, esta informação pode fazer uma diferença significativa tanto nos resultados como na forma como vivem emocionalmente o processo.

É possível melhorar a qualidade dos óvulos?

Esta é uma das questões mais difíceis no tratamento da infertilidade. Adotar um estilo de vida saudável pode contribuir para a saúde reprodutiva de forma geral, mas não melhora significativamente a qualidade dos óvulos.

Ainda assim, pode ser benéfico:

  • evitar fumar
  • manter um peso saudável
  • ter uma alimentação equilibrada
  • reduzir os níveis de stress sempre que possível

Estas medidas contribuem para a sua saúde geral, mas não revertem as alterações na qualidade dos óvulos associadas ao envelhecimento.

Para muitas mulheres com mais de 38 anos, com níveis baixos de AMH ou que já passaram por vários ciclos de FIV sem sucesso, a qualidade dos óvulos pode ser o principal desafio.

Quando a doação de óvulos pode ser a melhor opção

Se a qualidade dos óvulos estiver a afetar significativamente as suas probabilidades de sucesso, a FIV com doação de óvulos poderá ser a opção de tratamento mais eficaz.

Recorrer a óvulos de uma dadora não deve ser visto como um último recurso. Trata-se de um tratamento consolidado que já ajudou muitas pessoas a concretizar o sonho de ter filhos.

Como a qualidade dos óvulos tende a diminuir com a idade, a FIV com óvulos de uma dadora pode apresentar taxas de sucesso superiores às da FIV com óvulos próprios em mulheres com mais de 40 anos. Os óvulos são, geralmente, provenientes de mulheres mais jovens, saudáveis e sujeitas a uma seleção rigorosa.

O Dr. Vladimiro Silva explica:

“Incentivo sempre os pacientes a encarar a doação de óvulos não como uma perda, mas como uma verdadeira oportunidade. É a mulher que vive a gravidez e acompanha cada etapa do desenvolvimento do bebé desde o primeiro momento. Esse vínculo é real e profundamente significativo.”

 

Na Ferticentro, a seleção entre dadores e recetores é feita de forma cuidadosa, tendo em conta as características físicas e o grupo sanguíneo.

Também disponibilizamos testes de compatibilidade genética entre a recetora e a dadora selecionada, com rastreio de até 2.200 mutações genéticas, ajudando a reduzir o risco de doenças hereditárias em crianças concebidas através de doação. Saiba mais sobre o nosso banco de gâmetas.

Receberá igualmente informação detalhada sobre as dadoras, incluindo características físicas, historial de saúde, formação académica e alguns aspetos da personalidade.

Além disso, por se tratar de uma doação Open-ID, a identidade da dadora permanece protegida durante todo o processo de tratamento. No entanto, a legislação portuguesa permite que as pessoas concebidas através de doação tenham acesso à informação identificativa da dadora quando completam 18 anos.

Perguntas a fazer se já teve ciclos de FIV sem sucesso

Se já passou por um ou mais ciclos de FIV sem sucesso, vale a pena conversar com o seu especialista em fertilidade sobre a possibilidade de a qualidade dos óvulos ter contribuído para o resultado.

Algumas perguntas úteis incluem:

  • Qual foi a qualidade dos embriões obtidos?
  • Algum dos embriões foi submetido a testes genéticos?
  • Em que fase os embriões deixaram de se desenvolver?
  • É provável que a qualidade dos óvulos esteja a contribuir para o problema?
  • Um protocolo de estimulação diferente poderia ajudar?
  • Faz sentido discutir a possibilidade de recorrer a óvulos de dadora?

Na Ferticentro, disponibilizamos consultas para pacientes que pretendem rever tratamentos anteriores e discutir os próximos passos mais adequados ao seu caso. Entre em contacto connosco para saber mais.

É muito mais do que o seu número de óvulos

Os tratamentos de fertilidade podem parecer muito centrados em números. Os níveis de AMH, a contagem de folículos, as taxas de fertilização e a classificação dos embriões são indicadores clínicos importantes, mas não definem quem é nem determinam, por si só, as suas probabilidades de sucesso.

Quer esteja a iniciar a sua primeira FIV, a preparar-se para um novo ciclo ou à procura de respostas após uma experiência difícil, a equipa da Ferticentro está aqui para lhe dar acompanhamento com informação clara, apoio e orientação personalizada. Se quiser dar o próximo passo, marque uma consulta connosco.